Prefácio de um review – Vale a leitura

Vivemos em uma era mágica, quantas vezes já fiz este mesmo comentário aqui hein? Sempre reforço esta firmação porque tive uma infância e adolescência pobre. Juntar cada centavo para comprar HQs não era fácil. Inúmeras tarefas, época do plano cruzado, cruzado novo, todo mês as HQs mudavam de preço, sofri muito com a desvalorização do dinheiro. Coisa que só se estabilizou nos anos noventa. Colecionar quadrinhos fazia sim parte do drama de uma recessão econômica.

Relembrar minha trajetória ou de qualquer um com minha idade e uma paixão por algo é material suficiente para escrever um livro. Mas voltando ao nosso assunto, nosso motivo de ser feliz por estar vivo é de ver preciosidades relançadas e estar aqui pelo prazer de tê-las na coleção. Sim Batman Ano Um é uma destas preciosidades.

Ano Um – A História da HQ

Esta edição é uma aventura de quatro partes publicada na revista mensal do Morcego, e lançada no país originalmente em setembro de 1987 em Batman nº 1. Foi republicada quatro vezes, incluindo a edição de luxo da Panini.

As quatro partes da trama são como atos narrativos de uma peça literária, apresentando aspectos diferentes da criação da figura do Morcego. Indo além da origem do herói, a história apresenta a chegada de Gordon a Gotham City, um elemento narrativo que se amarra à fundação da personagem central.

Ano Um – O conceito da história

Situada em um período de um ano, a história é bem dosada temporalmente tanto por cenas-chave da concepção da personagem como por cenas breves de treinamentos e do cotidiano policial por parte de Gordon. Frank Miller leva ao pé da letra a concepção de um ano e apresenta o lento desenvolvimento desta dupla. Batman ainda é um homem em treinamento, à procura dos primeiros contatos para testar suas habilidades, enquanto Gordon, recém transferido, observa como funciona a polícia corrupta do local.

Frank Miller desenvolve o roteiro com simplicidade sem perder o requinte narrativo. Equilibra-se bem entre Batman e Gordon, demonstrando que ambos são peças fundamentais que representam um mesmo ideal: a manutenção da cidade e da lei. A obra observa o amadurecimento destas personagens. No caso Batman pela rigidez e disciplina da luta após erros e acertos em campo, e Gordon como o único policial incorruptível da corporação, tendo de arcar com a responsabilidade de ser visto como um pária pela equipe.

Em comum, ambos possuem a retidão e admiram-se mutuamente, mesmo sem ainda se conhecerem. Não à toa, boa parte deste roteiro foi inspiração para a concepção de Batman Begins de Christopher Nolan. Não só o encontro com Gordon é idêntico como também outras cenas chave desta história.

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Se Batman é a figura heroica vista com breve distanciamento por conta da disciplina e do luto que carrega desde a infância, Gordon é concebido como o homem que realiza o possível na medida de suas forças. Batman sempre se assemelhou com um deus capaz de sobrepujar tudo e todos.

Mesmo que o público o reconheça como humano, seus feitos o elevaram a um olimpo invisível. Enquanto o futuro Comissário é uma figura imperfeita que trai a esposa grávida e sofre violência por parte de seus companheiros, ainda assim demonstra que em seu caldeirão as intenções boas se sobressaem. Não à toa é um dos personagens mais empáticos do universo do Morcego.

Batman demonstra desde o princípio a engenhosidade tática que hoje é admirada por seus leitores. E mesmo inserido em um universo fictício, a história de Miller apresenta uma vertente realista que transforma a loucura heroica da personagem em um elemento mais crível, sendo a base para a visão que leitores atuais têm do Morcego.

Ano Um – Extras da Edição

Os extras desta edição especial trazem diversos esboços de David Mazzucchelli, além de uma breve biografia em quadrinhos mostrando como surgiu seu interesse por desenhos. É um material rico para observar a criação desta obra-prima. A arte desta edição foi inteiramente repintada por Richmond Lewis em pinturas feitas à mão, que depois foram inseridas nos desenhos de Mazzucchelli. Sem dúvida, as cores são parte da proposta realista da história e produzem o toque final que faz desta obra uma das aventuras primordiais do Morcego. Uma origem fundamental ao mito que Batman se tornou.


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  • Adriano José Gonçalves

    Ótimas considerações Washington!